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Tecnologia

Desconto por compromisso na cloud: quando vale assinar por um ou três anos

AWS, Azure e Google Cloud dão descontos grandes para quem se compromete com um gasto mínimo. Como funciona em cada um, a conta que pouca gente faz, e por que o compromisso deve cobrir o piso do uso, não a média.

7 min de leitura

Gráfico em que o custo de cloud, antes em alta, passa a cair abaixo da linha de orçamento

Toda empresa que paga cloud por uso, cedo ou tarde, recebe a mesma sugestão: "se vocês se comprometerem por um ano, o desconto é enorme". É verdade. E é também um dos jeitos mais rápidos de transformar desperdício em contrato.

O desconto por compromisso é uma das ferramentas mais eficazes para reduzir a conta de cloud. Usado na hora errada, ou na medida errada, ele faz o contrário.

A ideia em uma frase

Você promete ao provedor que vai gastar, no mínimo, um certo valor (ou usar uma certa quantidade de recursos) durante um ou três anos. Em troca, paga menos do que o preço sob demanda, aquele cobrado de quem não promete nada.

O detalhe que muda tudo: a promessa é cobrada mesmo que você não use.

Como funciona nos três maiores provedores

AWS: Savings Plans

Na AWS, o modelo recomendado hoje são os Savings Plans. Você se compromete com um gasto fixo por hora, em dólares, por um ou três anos. O uso até esse valor sai com desconto; o que passar é cobrado pelo preço sob demanda.

A documentação da AWS descreve os tipos principais:

  • Compute Savings Plans: os mais flexíveis. Valem para qualquer família e tamanho de servidor, sistema operacional e região, e também para Fargate e Lambda. Desconto de até 66%.

  • EC2 Instance Savings Plans: exigem compromisso com uma família de servidores numa região específica. Desconto de até 72%.

A AWS é clara num ponto: os termos do compromisso não podem ser alterados depois da compra. Se o uso muda, dá para contratar um plano adicional, não reduzir o que já foi contratado.

Microsoft Azure: reservas e savings plan

A Azure tem dois mecanismos:

  • Instâncias de VM reservadas, para um tipo de máquina: a Microsoft anuncia economia de até 72%, numa faixa de 36% a 72% conforme o caso.

  • Savings plan for compute, mais flexível, com compromisso de gasto por hora: até 65%, numa faixa de 11% a 65%.

As notas de rodapé da Microsoft mostram de onde vêm os números máximos: são exemplos específicos, com uma máquina grande, rodando por 36 meses, num compromisso de três anos.

Google Cloud: committed use discounts

No Google Cloud, os compromissos também são de um ou três anos, e o de três anos tem desconto maior. Há dois tipos:

  • Por recurso: você se compromete com uma quantidade de processador e memória numa região. Desconto de até 55% para a maioria das famílias de máquina, e até 70% para as otimizadas para memória.

  • Flexíveis, por gasto: você se compromete com um gasto mínimo por hora, que vale para vários serviços. Para as famílias de uso geral, o desconto é de 28% em um ano e 46% em três.

A documentação do Google é direta: os recursos comprometidos são cobrados todo mês até o fim do prazo, o compromisso flexível é cobrado independentemente do uso real, e um compromisso por recurso não pode ser cancelado depois de comprado.

O que os três têm em comum

  • Os percentuais máximos são o melhor caso: prazo de três anos, opção menos flexível, configurações específicas. O desconto de um compromisso flexível de um ano é bem menor.

  • O compromisso é cobrado inteiro, use ou não.

  • Não dá para voltar atrás: cancelar ou reduzir, em regra, não é possível.

A conta que pouca gente faz

Um exemplo com números redondos e hipotéticos.

Uma empresa gasta, em média, R$ 10.000 por mês com servidores sob demanda. Olhando os últimos seis meses, o gasto variou entre R$ 6.000 e R$ 13.000, e nunca ficou abaixo de R$ 6.000. Esse é o piso. Suponha um desconto de 30% para o compromisso de um ano.

Opção 1: comprometer o piso, R$ 6.000 de uso por mês.

Esses R$ 6.000 de uso passam a custar R$ 4.200. O resto continua sob demanda. Economia de R$ 1.800 por mês, ou R$ 21.600 no ano, e o risco é baixo: em seis meses, o uso nunca ficou abaixo desse valor.

Opção 2: comprometer a média, R$ 10.000 de uso por mês.

Com o desconto, o compromisso custa R$ 7.000 por mês. Nos meses de uso alto, a economia é maior: R$ 3.000 por mês.

Agora imagine que, no quinto mês, a empresa desligue um sistema antigo e o uso caia para o equivalente a R$ 7.000 a preço cheio. O compromisso continua custando R$ 7.000. Ou seja: a empresa passa a pagar o mesmo que pagaria sem compromisso nenhum, e perdeu a liberdade de reduzir a conta. Se o uso cair mais, ela passa a pagar mais do que pagaria sob demanda, até o fim do contrato.

O compromisso não sabe que o negócio mudou. E, como vimos, não dá para reduzi-lo.

Piso, não média

O piso é o menor nível de uso que se repetiu ao longo de um período razoável, de preferência os últimos 6 a 12 meses. Para encontrá-lo:

  1. Abra o relatório de custos do provedor e agrupe por mês, ou por dia, se o uso oscila muito.

  2. Separe o que é elegível ao desconto (servidores, contêineres, funções) do resto (armazenamento, transferência de dados, licenças), que tem outros mecanismos ou nenhum.

  3. Olhe o menor valor do período e pergunte: alguma coisa planejada para os próximos meses vai derrubar esse uso? Migração, desligamento de sistema, saída de um cliente grande?

Se a resposta for não, esse é o candidato a compromisso. Os provedores oferecem recomendações automáticas de quanto comprometer, e elas são um bom ponto de partida. Mas elas olham para o passado; quem conhece os planos para o futuro é a empresa.

A ordem certa

  1. Limpar primeiro. Máquina de teste esquecida, disco de servidor que já foi desligado, ambiente que ninguém usa desde o último projeto. Comprometer-se antes disso é assinar por um ou três anos o desperdício de hoje.

  2. Ajustar o tamanho. Servidor dimensionado para um pico que nunca veio também entra no piso, se ninguém olhar.

  3. Comprometer só o piso do uso que sobrou.

  4. Preferir a flexibilidade no começo. O compromisso flexível tem desconto menor, mas sobrevive a uma troca de família de servidor, de região ou de arquitetura.

  5. Revisar a cada trimestre. Se o piso subiu, um compromisso adicional cobre a diferença. Se caiu, você descobre antes de renovar.

Um ano ou três?

Três anos dão o maior desconto. Também são uma aposta de que a empresa, a arquitetura e o próprio mercado de cloud vão continuar parecidos até lá. Em três anos, sistemas são reescritos, empresas mudam de provedor e os provedores lançam máquinas mais baratas.

Uma regra razoável: três anos só para o que é muito estável (o banco de dados principal, que roda sempre no mesmo tamanho), e um ano para o resto. Escalonar compromissos, comprando uma parte a cada trimestre em vez de tudo de uma vez, também ajuda: os vencimentos ficam espalhados e a revisão vira rotina.

Como acompanhar depois de comprar

Dois indicadores contam a história inteira:

  • Utilização: quanto do compromisso está sendo de fato usado. Abaixo de 100%, a empresa está pagando por capacidade que não usa.

  • Cobertura: quanto do uso elegível está coberto pelo compromisso. Cobertura baixa significa que ainda há uso estável pagando preço cheio.

O objetivo não é 100% de cobertura. É utilização perto de 100%, com a maior cobertura que o piso permite. Os provedores mostram esses números nos próprios painéis de custo; na AWS, por exemplo, nos relatórios de Savings Plans do Cost Explorer.

Quando não vale

  • Uso muito instável, sem piso claro.

  • Migração ou desligamento à vista nos próximos meses.

  • Conta pequena, em que a economia não paga o tempo de acompanhar.

Nesses casos, o preço sob demanda é o preço da flexibilidade, e às vezes ele é o certo.

Fontes

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